Literatura

Cássia Eller: uma voz sempre viva
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Cássia Eller: uma voz sempre viva

Luciana Bessa Cantora e compositora, Cássia Eller, uma das maiores vozes do rock brasileiro da década de 1990, foi considerada pela revista Rolling Stone Brasil, como a 18ª voz de sua época. E que voz! Uma rouquidão potente que foi sendo lapidada com o tempo e que não deixou de ecoar mesmo depois de sua partida, no dia 29 de dezembro de 2001. Dona de um Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock pelo Acústico MTV (2001), com mais de um milhão de cópias vendidas, três canções desse projeto continuam marcando gerações de jovens-adultos: “Malandragem", "Por Enquanto" e "O Segundo Sol". “Malandragem”, por exemplo, escrita em 1985, é uma mistura da sensibilidade do Cazuza e da energia do Frejat (Barão Vermelho), que traz à tona a esperteza e a astúcia diante das adversidades que a vida nos...
Segue a viagem
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Segue a viagem

Alexandre Lucas Domingo, a praia se espalha diante dos olhos, os nervos entram em tempestade. O patuá de Yansã repousa no fundo da bolsa. O coração é espremido, talvez exploda. A mãe mastiga batata, o filho fica quieto, pelos menos por alguns minutos. A moça do lado olha pela janela, as luzes descrevem as estradas. O seu diálogo é curto e desconvidativo. O jovem bebe o seu descanso e recita seus versos de improviso. Recebe aplausos e mais uma dose.  A maioria dorme, enquanto a noite se encurta. Faz escuro, mas o sol nasce pelas manhãs, porém pode chover. Procuro as estrelas, já não estão no céu, muito na bolsa carregada de livros e roupas sujas.  A moça do lado continua calada, suas pernas balançam, parece inquieta.  O ônibus segue viagem, mas circula pel...
A PRODUÇÃO LITERÁRIA DE MULHERES NA REGIÃO NORDESTE
Literatura

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DE MULHERES NA REGIÃO NORDESTE

Luciana Bessa Leitura e escrita são instrumentos de poder. Quem lê e quem escreve é mais consciente de si e dos fatos que estão ocorrendo ao seu redor. Ambas nos permitem enfrentar as experiências (positivas e negativas) a que somos submetidos. A linguagem, para além de uma dimensão comunicativa, é uma prática social pela qual os sujeitos se constituem por meio de interações sociais. Logo, a linguagem é uma atividade humana, histórica e social. A palavra é a unidade funcional da linguagem permeada de elementos de natureza visual, acústica e sinestésica. Através dela aprendemos a conhecer melhor o universo de possibilidades que nos cercam, por isso ela tem sentido e faz sentido. Além disso, conhecemos e nos fazemos conhecer pelo outro, desvendamos a nós mesmos e nos aproximamos ou ...
No bolso da cabeça
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No bolso da cabeça

Alexandre Lucas A estrada arrasta lembranças. O Sol castiga a pele e desorienta a paciência. O amor não ficou em casa, veio no bolso da cabeça. Trago na calça algumas moedas para o café quente. O bêbado estende a mão e a caatinga tentando esquecer o amanhã. No banco mastiga a língua e olha serenamente para tarde de poucos risos. Recebe moedas jurando comprar açúcar. Tomo café, enquanto observo as chegadas e as saídas. O cansaço decora os rostos, as malas parecem pesar, nunca é só uma mala. Três dedos de cachaça, não tinha açúcar, o bêbado faz careta. Olha para os lados, mas não encontra caminhos. A senhora do café exibe seu sorriso com dentes postiços: são os únicos que ela tem. Peço mais um café. O bêbado recebe mais algumas moedas e sai do banco com destino desorientado. ...
Ela se esfregava
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Ela se esfregava

Alexandre Lucas Passava três horas no banho, tinha apenas cinco anos e a cabeça marcada por enlinhados e lapadas. Era a preta, mesmo ninguém a vendo como a preta, preta. Se esfregava para ver se largava sua cor. Todos eram brancos, brancos, ela nasceu mais escurinha, se achava a patinha feia e gorda. Esfregava-se forte e desesperada, tinha fé que era sujeira. Fizeram acreditar que ela estava mudando de cor.  Queria parecer ser mesmo com a mãe.  Tomou banho de talco e foi desfilar na casa, crente que estava fazendo o papel de réplica matriarca. Serviu de riso e se desmanchou em soluços e lágrimas. Naquele momento sentiu o abraço aconchegante da mãe, mas ao mesmo tempo insuficiente. Depois do choro continuou se sentindo a maior pessoa: preta, gorda e amaldiçoada. ...
Livro premiado “As cartas de Maria” será lançado no Centro Cultural do Cariri no próximo dia 15
Cariri, Cultura, Literatura, Notícias

Livro premiado “As cartas de Maria” será lançado no Centro Cultural do Cariri no próximo dia 15

Foto: Divulgação No próximo dia 15 de dezembro, sexta-feira, às 18h, o Centro Cultural do Cariri recebe a poeta e artista Zulmira Alves Correia, para o lançamento do livro “As cartas de Maria”. Nele, a autora apresenta, em versos, os capítulos de uma partida. Inspirada em um compilado de histórias que ouviu quando era criança, a autora adentra a geografia sentimental da ausência, trazendo correspondências poéticas de uma mulher, no Sertão do Nordeste, que precisou partir de sua casa para seguir os caminhos da própria vida e o amor por um andarilho. Os poemas são apresentados em forma de cartas, escritas por Maria à mãe que ficou na antiga morada; são também relatos de uma mulher calejada pela morte dos filhos que mal chegavam a nascer. Nessa obra, Zulmira revela, com pungência, a vin...
Cultura Viva conhecer, defender e diferenciar
Literatura, Sem categoria

Cultura Viva conhecer, defender e diferenciar

Alexandre Lucas É necessário desromantizar o conceito de cultura como sendo algo necessariamente positivo. A cultura precisa ser percebida como processo permanente de produção e reprodução material e imaterial, permeada de conflitos, narrativas e ideologias predominantemente alinhada aos interesses da classe economicamente dominante.  O que nos coloca diante de um contexto de entendimento que cultura também não é algo homogêneo, imparcial e alheia a dimensão da alienação, violência, individualização, competição, mercantilização e fragmentação da vida e da luta pela construção de um novo tipo de sociedade.  No campo da luta por políticas públicas para cultura no Brasil, se faz necessário conhecer a trajetória, o caráter e a perspectiva peculiar e revolucionária do Cultura V...
Conceição Evaristo: acessando o mundo pelas palavras
Literatura

Conceição Evaristo: acessando o mundo pelas palavras

Luciana Bessa Ativista dos movimentos de valorização da cultura negra, Conceição Evaristo, mineira, nascida no dia 29 de novembro de 1946, é uma escritora multifacetada, que estreou como romancista com a obra Ponciá Vicêncio (2003), foi agraciada com o Prêmio Jabuti com os contos de Olhos D’água (2014) e se encontrou nos versos com Poemas de Recordação e Outros Movimentos (2017). Mãe lavadeira (Josefina Evaristo), tia lavadeira (Maria Filomena da Silva), desde muito cedo, Conceição Evaristo aprendeu a cuidar do corpo e da casa dos outros para sobreviver em meio a uma sociedade que não foi concebida para mulheres, tampouco, as negras. Aos setes anos de idade foi morar com a tia Filomena e o tio Totó para que a mãe tivesse uma boca a menos para sustentar. A privação do convívio mat...
Memorial de Maria Moura
Literatura

Memorial de Maria Moura

Luciana Bessa Grande painel das relações afetivas, morais e sociais – Memorial de Maria Moura (1992) - é a obra com a qual Rachel de Queiroz, aos 82 anos de idade, se despede, em grande estilo, da escrita romanesca. É a obra mais extensa da autora (em torno de 600 páginas), com dois núcleos: principal, com Maria Moura e os primos Tonho e Irineu; secundário, com o padre José Maria (Beato Romano) e o casal Marialva/ Valentim e o filho Alexandre (Xandó). O enredo é contado pela voz de três narradores — discurso polifônico (várias vozes) — que quebra a linearidade do romance dando a ele mais dinamicidade e mais curiosidade ao leitor. Os capítulos são curtos se assemelhando aos folhetins do século XIX, sendo intitulados com os nomes das personagens centrais do enredo. A linguagem simp...
Os pratos aguardam
Literatura

Os pratos aguardam

Alexandre Lucas Cercado de livros e caçando palavras. A ponta dos dedos acariciava as páginas como quem queria tocar os lábios, sentir a natureza da carne, desvendar o mistério, descascar as palavras para sentir a nudez passada na língua. Os livros parecem que ganham saias, algumas justas, outras rodadas. Relaxa, não é sobre os livros, é sobre enigmas e as palavras que se conjugam. O doce que passa pela boca. A maciez da delicadeza. O sorriso que inunda os céus. Calmas e inquietas, as palavras molham os desejos, tocam fogo na sensatez, transpiram, atravessam os corpos distantes, mordem os lábios. A palavra veste o pecado e se apropria do fruto proibido. Queima de prazer. Tentação é a palavra despida nas entrelinhas dos limites. Vamos jogando as palavras como quem retira lentam...