Literatura

A Cabeça do Santo
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A Cabeça do Santo

Luciana Bessa* O real foi o mote para a escritora cearense Socorro Acioli criar a ficção A Cabeça do Santo, publicada no ano de 2014, traduzida para o inglês e o francês e, que em breve, se tornará filme. O projeto da criação de uma estátua de Santo Antônio teve início em 1984, no município de Caridade, aproximadamente 91km da capital Fortaleza. Na época, o prefeito, Raul Linhares, desejava tornar a cidade conhecida por meio do turismo religioso, tal qual a cidade vizinha, Canindé, que atrai anualmente cerca de 400 mil turistas. Contudo, em 1986, o projeto foi interrompido por falta de recursos. A cabeça [do santo] teria se tornado parte do muro da casa de nº25 do Conjunto Habitacional, onde moraria um dos engenheiros da obra. A princípio, Socorro Acioli conheceu essa história por...
A Sálvia não me basta
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A Sálvia não me basta

Alexandre Lucas* Dormir com Sálvia. Passei a noite cheirando o desejo e acariciando lentamente suas formas. Você me deixou com ela e com um monte de recortes.Pintei de azul, amarelo, vermelho, branco e preto nossas formas coloridas de amar. Sinto o cheiro de Sálvia e o seu cheiro de fruta doce. Tomo café e vejo a marcha dominante do seu corpo costurando o meu, procurando mar e tiroteios. Pei, Pei, Pei, ficamos mais vivos e dispostos a caminhar.Hoje é um dia qualquer. São esses os dias em que só a Sálvia não basta. Pode servir algumas mordidas, um gole de purpurina e algumas colheres de brasa. O trabalho hoje começa mais cedo, porque a fornalha precisa de lenha para acender a poesia e a carne. Até logo! Sobre o autor: Alexandre Lucas *Alexandre Lucas é escrevedor, articu...
Aprendendo a temperar
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Aprendendo a temperar

Alexandre Lucas* Estava na cozinha temperando afetos. Três pontos, brilhos e sorrisos, flores flutuando. Você ainda não tinha chegado.Molho vermelho no coração e na panela. Quase oito horas. Você sobe as escadas com licor de amora, vestida com uma jardineira com tons vibrantes, lembra as minhas pinturas alegres. Um beijo breve na beira do fogo como quem diz estou aprendendo a partilhar o alimento da primavera. Vejo borboletas.Comida na mesa. O vermelho parece preencher o espaço: tomate, molho, manifesto comunista e o coração encarnado de alegria.Você estava temperada. Seus olhos pareciam um abraço. Suas mãos esculpiam com delicadeza o meu rosto, seu beijo penetrante me conduzia.Balançamos na rede sonhos e prazeres. Massageava o ventre como quem modelava a subida aos céus. Você fez chuva...
Ladrão de amor
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Ladrão de amor

Francisco Joherbete Silva Lima* Pessoa rudimentarRuim de viverMas, afinal, é bom de conhecerPois muitas vezes há momentos que gostou de ter prazer. É como ladrão de amoresRouba como se fosse à noiteAge sigiloso, e rápido,Mas é assim que começa a roubalheira chamada talaricagem. Evito falar de coisas assim,Pois elas trazem algo ruim para mimMas saiba, eu nem ligo e nem apostoPois sei que um dia vou ter remorsoAcredite em mim, não vou nem explicarPois com palavras mostro a dor que é relatarAções traiçoeiras que andam para cá e pra lá. Sobre o autor: Francisco Joherbete Silva Lima *Aluno do 8° ano do Colégio Municipal Pedro Felício Cavalcanti. Gosta de ler poesias e de fazer também. "Abrace sua tristeza".
Cantava cá
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Cantava cá

Alexandre Lucas* Chico cantava, nós em versos nos debulhamos. Chico tinha multidões e nós nos bastávamos. Era sexta-feira. Pão com canela, licor de amora, um doce, o chão, a partilha. Escutamos Chico pelo celular, o suficiente, mas nem lembramos o que tocava. Estávamos focados em caminhar pelos olhos.Os caminhos percorriam a casa e os poros. Um gole de licor e um pedaço da tua língua. A flor estava guardada dentro de Neruda e viva nos nossos lugares.O carvão ativado escorria na tua e na minha pele, tuas mãos deslizavam poesia. Teu corpo quente molhado decifrava a dança. Chico falava “para viver em estado de poesia/me entranharia nestes sertões de você”, já entranhados, mordia seus lábios. Na rede, descansava os sorrisos. Você espalhada, quase dormindo, quase sonhando. Chico já tinha can...
É preciso saber celebrar
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É preciso saber celebrar

Luciana Bessa* Abril começou com o dia da mentira (1) e vai finalizando com o dia da verdade: meu aniversário (27), momento de celebração. Pelo quê? Por estar viva, por gozar de saúde física e mental em uma sociedade que cultua a aparência e deixa em segundo plano a essência. Por ter disposição para correr atrás dos sonhos que ainda não realizei e agradecer por aqueles conquistados. Por ter adquirido a maturidade de compreender que nem tudo são flores nessa vida, mas que os espinhos são capazes de nos fortalecer para que continuemos caminhando. A tristeza, assim como a alegria, é momentânea; que independemente do sol, ou da chuva, é preciso lutar pelo que acreditamos. Por ter acesso aos livros, um bem de consumo caro em nossos tempos. Eles me permitem conhecer pessoas e narrati...
Vestido no banho
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Vestido no banho

Alexandre Lucas* Mordia com os olhos os lábios. Nua se penteava com água. Devia ser uma segunda-feira. Nada previsto. Estava na porta vestido, vendo a água arrastar o cansado do dia, a única coisa que aparentava querer era descansar. Antes do banho ensaiou sem querer, alguns choros, afinal a vida é desafiadora.  Seu corpo molhado e meu olhar em chamas. Cansei de observar, puxei pela cintura. Debaixo do chuveiro, seu corpo   vestido de nudez. Eu, ainda de roupa, sentia sua respiração ofegante, seus dentes denunciando sua vontade nos meus lábios.  Era impossível disfarçar. Tinha fogo debaixo da água. Cruzamos os cômodos, os ventos e embaralhamos as línguas.  Cinco horas da manhã. Despeço-me. Você anda dormindo, lençol decotando seus seios, um beijo antes ...
História de rua
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História de rua

Francisco Joherbete* Um mendigo ferido estirado no chão.Sangrando e faminto implorando por proteção.Até que veio um homemEstendeu sua mão para lhe ajudar a moldar o seu coração O mendigo feliz o agradeceu de coração,Ele ficou tão contente que chorou de tanta emoção, pois sabia que aquelehomem era manso e se importava com as pessoas de todo o seu coração. E o homem sem desapego o respondeu com um aperto de mão. E essa história nos traz uma lição:ajudar o próximo sem receio no coração e ficar feliz com as coisas da vida.Alegrar o dia de uma pessoa com aflição,Viver alegre e em paz, porque amar e ajudar dão sentido à nossa vida. Sobre o autor: Francisco Joherbete *Aluno do 8° ano do Colégio Municipal Pedro Felício Cavalcanti. Gosta de ler poesias e de fazer também...
Acho que já estou com idade para casar
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Acho que já estou com idade para casar

Shirley Pinheiro* Acho que já estou com idade para casar. Pelo menos é o que têm me dito as pessoas que passam por mim. Algumas eu conheço, outras já ouvi falar, a maioria só sabe que eu sou filha de sicrano, neta de fulana de tal, parenta de não sei quem. Todas com a mesma dúvida: quando é que você vai casar? Sendo bem sincera, é sim uma pergunta que me irrita. Não só pelo caráter invasivo (por que as pessoas se acham no direito de questionar a vida pessoal de alguém que nem conhecem?), mas também pelo caráter opressor (nós mulheres somos constantemente submetidas a essa pergunta, enquanto os homens permanecem isentos). Mas eis que dou meu veredito: não quero casar. E é aí que as coisas ficam divertidas, pois é chegado o momento em que os olhares transmitem a verdade por trás...
Massageando poesia
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Massageando poesia

Alexandre Lucas* O mundo abriu as pernas, achava que nem pernas mais tinha de tão parado. Repentinamente, você se vê andando e cavalgando entre as pernas, o mundo anda. Ontem, estava apenas com teus  pés, teu corpo  seminu, a música de silêncio  tocando alegrias.Teus pés e nada mais. Torneava de creme, cheiro e delicadeza, andava com a ponta dos dedos, as palmas das mãos e seu olhar descrevendo descobertas.  Teu corpo seminu, mas eram teus pés que queriam tocar primeiro, fazer uma valsa, sentir a maciez da noite, tecer o sonho, alimentar o desejo.  Dormir massageando a madrugada.Eram os teus pés que naquele instante, assumia a imensidão do teu corpo-mundo. A dimensão poética do gozo, a humanização da carne. Tem dias que quero apenas os teus pés e nada mais: não que eles me bastem, mas ...