Literatura

Do signo de sagitário e suas buscas incessantes: Conceição Evaristo
Literatura

Do signo de sagitário e suas buscas incessantes: Conceição Evaristo

Professora, pesquisadora, poeta, contista, romancista, ensaísta, com graduação, mestrado e doutorado na área de Letras, Conceição Evaristo tem construído uma carreira das mais sólidas de nossa Literatura Brasileira Contemporânea. Sob o Signo de Sagitário, este signo que reivindica liberdades e aprofundamentos existenciais, Conceição Evaristo nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte–MG. Oriunda de família que enfrentou dificuldades socioeconômicas diversas, teve que trabalhar desde cedo. Ela viveu na extinta Favela do Pendura Saia, em Belo Horizonte, e precisou, do mesmo modo que sua mãe, trabalhar como empregada doméstica. Foi pelo estudo, porém, que pôde transformar sua realidade: ela mudou-se para o Rio de Janeiro, fez concurso público e tornou-se Professora. Depois, graduo...
Brincando de reisado em tempos de guerra
Literatura

Brincando de reisado em tempos de guerra

Clarinha e Miguel brincam de reisado. Entre espadas, coroas, espelhos e as cores vibrantes do cetim, a alegria pula sobre as pedras toscas das ruas floridas de gente. É o primeiro dia do ano. Dia Mundial da Paz. A espada de São Jorge sobre a mesa não protege ninguém. A paz, por aqui, não fez morada. Clarinha e Miguel me trazem estrelas nos olhos. Ainda morrem crianças nas guerras diárias; outras se encolhem. Eu queria apenas ver Clarinha e Miguel brincando, trazendo-me as estrelas que brotam da terra. As espadas atravessam, e eu ando de olhos abertos como gato morto. Derramo lágrimas enquanto alimento os pombos. Hoje ainda é o primeiro dia do ano, e o mundo não escolhe data para acabar. Prefiro acreditar que Clarinha e Miguel continuarão brincando de reisado, mesmo que amanhã cres...
Flor de Chanana
Literatura

Flor de Chanana

Entre as calçadas surgiam chananas. Alguns diziam que é mato. O que é mato? Seriam todas as plantas abundantes cujo nome não sabemos identificar; talvez seja isso. A chanana deixa de ser mato quando sabemos seu nome, quando enxergamos sua serventia e sua importância. A chanana nasce fácil. Hoje pela manhã, nasceram chananas nos meus olhos. A noite foi serena; encontrei a ponta das estrelas e fiquei brincando de jogar bolas de nuvens. O café tinha gosto de massagem, com pedaços de morango e uva, alguns dedos  de iogurte e mel, além de sementes iguais àquelas que os pássaros comem. A gente não vê chanana em vaso. Ela surge nos campos e entre as calçadas e se torna poesia quando deixa de ser mato. Sobre o autor: Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Por...
O ano de 2025 da Literatura Brasileira
Literatura

O ano de 2025 da Literatura Brasileira

Luciana Bessa A Literatura Brasileira  está caminhando de vento em polpa, embora a última pesquisa Retratos do Brasil (2025) tenha  revelado que, pela primeira vez em nossa história, a maioria dos brasileiros (53%) não lê livros. O brasileiro pode até lê pouco, mas os eventos literários pipocam por todo o país e, claro, ele não deixa de participar e até mesmo de comprar ao menos um livro. Em abril deste ano, aconteceu em Fortaleza a XV Bienal ( eu estava lá) com o tema “Das fogueiras ao jogo das palavras: mulheres, resistência e literatura”. Em um Centro de Convenções lotado todos os dias, o público encontrou além de saraus, shows, mesas literárias, 34 editoras, 25 livrarias, 32 distribuidoras e pasmem: 500 lançamentos de obras literárias, entre os dias 4 ...
Cabeça Possível
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Cabeça Possível

— Você acha que sou artista? — pergunta o estudante, mostrando seus desenhos cheios de vontade de acertar. — Continue desenhando. Foi a única resposta possível para aquele momento. Poderiam ser outras, inúmeras possibilidades para animar ou frustrar aquele estudante. Continue desenhando parecia a mais cabível. Incentivar que ele continuasse desenhando talvez fosse o caminho que o pudesse tornar artista, mas fazê-lo acreditar em si já era o suficiente. Ele desenhava rostos do Homem-Aranha, só os rostos; não sabia desenhar o restante, mas já estava feliz com o resultado. Era final de ano. No próximo, talvez uma nova escola. Novos desenhos. É possível que não quisesse mais desenhar rostos do Homem-Aranha, ou que tivesse aprendido a fazer o corpo todo. Poderia também ter desisti...
As árvores da minha infância
Literatura

As árvores da minha infância

Dina Melo Eu morava num sítio, a vida passava devagar. Devagar eu me punha a olhar as árvores, as flores, a estrada, as formigas, a terra. O curral, as vacas que viravam mães, os carros de boi carregados de cana, os trabalhadores com suas enxadas nos ombros, as mulheres com os potes de água na cabeça, os ninhos de pássaro nos pés de café, os casulos pendurados nas árvores. Via os cafezais, os pés de maracujá, de seriguela, de tangerina, os abacateiros, as laranjeiras, as mangueiras, as jaqueiras, as bananeiras, as goiabeiras, os canaviais. Ah, as árvores da minha infância foram muitas e diversas. Nelas eu brincava de mãe, de filha, de professora. As árvores ouviam meus risos, meus gritos, meus prantos. Também sentiam meus abraços, meus carinhos. Eu gostava de passar a mão nos tron...
Colhendo sementes
Literatura

Colhendo sementes

Logo cedo encontro tuas palavras, marcadas por brincadeiras e pulos de afeto. Guardadas no caderno de anotações entre rabiscos, ensaios de poemas, propostas, encaminhamentos, pautas vencidas e desenhos de rostos. Li lentamente tuas palavras, como quem quer sentir o gosto do fruto molhado em tempos de escassez. Pensei em escrever um livro sobre agricultura para adubar as páginas com tuas palavras e construir casulos para tuas sementes. Um livro para experimentar plantar estrelas. Parece que vai chover; o dia está nublado e abafado. Caminho para o trabalho. Carrego você nos braços da lembrança, espalho tuas palavras pelos bolsos e jardins, taco na boca e nos olhos com a delicadeza dos bordados e das aquarelas. Teu corpo despido pela manhã é um bom livro para iniciar o café, mas nada...
Não se fazem mais dezembros como antigamente
Literatura

Não se fazem mais dezembros como antigamente

Luciana Bessa Em minha memória, dezembro sempre foi um mês marcado por festividades e simbologias. Este dezembro de 2025 nunca esteve tão insuportavelmente quente e violento. Sinto saudades daquele tempo em que nossas maiores preocupações dezembristas  giravam em torno do presente do amigo secreto, da roupa que seria usada na noite de Natal, da comilança e do ganho de peso, da constatação das metas não cumpridas e do planejamento das metas do ano vindouro. “Mudam-se os  tempos”, mudam-se as preocupações, especialmente para as mulheres. A maior agonia é manter-se viva. Domingo, 07, mulheres em todo país ( eu estava lá) foram às ruas para denunciar os altos casos de feminicídio, além de protestar contra todas as formas de agressão aos direitos femininos. Mais do que den...
O smartphone
Literatura

O smartphone

Gracynha Silva Olha Anne, meu novo “Smartphone”! Na presa cotidiana e com vários afazeres Anne ouvia essa bela frase que soava um leve tom de alerta imediato, mas não é por mal...entenda bem, estamos na era da contemporaneidade, no modo urgência e frenético, perfeitamente normal, até então, mas não podemos desconsiderar o humano, o cálido, o fervor da vida, que não tem nada de urgente, pelo contrário... há um pedido de calmaria com mistura de natureza e um leve sentir da brisa ao amanhecer. Sejamos honestos, pois tudo isso só vale a pena se a alma não for pequena. Ah, Fernando Pessoa, suas palavras são tão urgentes para esse mundo de hoje. Esteja mais entre nós... a geração z precisa de suas polidas palavras! ...
A(s) metamorfose(s) do sujeito contemporâneo
Literatura

A(s) metamorfose(s) do sujeito contemporâneo

Dia 29, último sábado do mês de novembro. Participei na condição de ouvinte do grupo de Direito e Arte, projeto de Extensão da Universidade Regional do Cariri (URCA), coordenado pela professora Ana Elisa Linhares e conduzido por Juliana Souza. Livro escolhido pelo grupo? A Metamorfose do escritor alemão Franz Kafka. Sou dessas pessoas que fica impressionada com o poder dos livros através dos tempos. Uma narrativa concebida em 1915 é tão atual em 2025, que me questiono, se o escritor é um gênio, ou se a humanidade retrocede política, social, econômica e afetivamente com o passar dos dos anos? Penso que as duas opções. Em A Metamorfose (1915) conhecemos um caxeiro-viajante, Gregor Samsa, que um dia qualquer, acorda metamorfoseado em um inseto, semelhante a uma barata gigante....